domingo, fevereiro 26, 2012

"E não adianta ligar sua luz, baby. Estou do lado escuro da estrada."


CAP.2
*

E assim terminou o dia em que resolvi fazer algo por mim, não foi um dos meus melhores anos aquele, pra ser sincero foi o pior. Eu estava no meu pior. E com aquela linha eu iria começar no outro dia um novo momento. Todos temos uma frase que gostamos de repetir a si mesmos em momentos de dificuldades, e ela se tornou a minha frase motivacional pessoal mas nunca gostei de repeti-lá, é muito forte, mas é a verdade. Era tão raro, talvez naquele dia fosse a terceira vez que eu usava aquela frase, mas era a primeira em que o meu eu bêbado usava e a primeira também em que ela mais se encaixava ao que eu sentia. Mas foi preciso, era a mensagem que o corajoso bêbado deixava para o sóbrio covarde.

Eu começava o dia seguinte com o sol do começo de tarde que entrava pela janela me queimando as pernas, sentia sono, sentia cansaço, tentei fugir dos raios do sol, não era possível. Sem escolhas me sentei na cama e a primeira coisa que me veio à cabeça foi dor. Abri os olhos e o brilho do sol refletido no metal do copo vazio na cabeceira da cama e o cheiro de vodca misturado ao suor que vinha de uma pilha de roupas num dos cantos do quarto me fez ter uma dor maior.

Levantei-me e fui até o banheiro, abri a torneira e joguei água um par de vezes no rosto, passei a mão no rosto e ainda tinha todos aqueles pelos, nada havia mudado. Mijei.  De volta ao quarto, peguei aquele papel preso à máquina e li. Fiquei com raiva, amassei e joguei na lixeira. Sentei-me na cama com as mãos no rosto, sentia o gosto amargo do mau hálito e da derrota. Por um instante senti que ia chorar. Filho da puta! Gritei para mim, resolvi pegar o papel de volta. Li aquilo outra vez.

Você é um nada.

E outra em voz alta.

Você é um nada.

Sem exclamações. Sem explicações. Apenas uma simples frase. Fria, dura e verdadeira. Sentia-me desesperado, sabia que estava desesperado, não sabia para onde ir e bebia sempre. Fugia. Mesmo assim, o bêbado corajoso não fizera nada errado. Foi apenas frio, duro e verdadeiro. Cai na cama e fechei os olhos e não vi mais aquela luz, nenhuma outra, era apenas escuro e com essa frase em letras brancas e grandes e brilhantes como um grande letreiro de um motel de beira de estrada. Voltei com apenas uma coisa em mente, sede.

Fui à cozinha e tomei um grande copo d’água gelada. Pensei em fazer algo para comer, peguei uma chaleira, coloquei água, coloquei-a no fogo e o acendi. Peguei uma caixa de cereal do armário e uma tigela do outro e uma colher da gaveta ao lado do fogão. Derramei um tanto na tigela. Coloquei a caixa de volta, tirei o café em pó, coloquei em uma caneca e procurei pelo açúcar... A chaleira apitou e não conseguia achar o açúcar, sabia que havia um pouco em algum lugar, procurei pelos armários e nada. Decidi olhar dentro da geladeira e lá dentro mais um pouco de nada. Algumas frutas, água, um sanduíche do começo da semana. Precisava fazer as compras.

Porra! Café amargo é o que eu mais preciso agora... O que mais pode acontecer para tornar esse dia melhor?

Não sabia o que viria naquele dia, mas senti que acabara de fazer uma grande besteira, senti que desafiara algo superior naquele momento e ele estava se aprontando para responder àquela afronta.

Que grande merda acabei de fazer!

Esse foi o último pensamento antes de colocar Bob Dylan para tocar e de me sentar à mesa da cozinha e comer aquela tigela e beber a pouco gosto aquele café que parecia mais amargo naquele dia. E mastiguei sem pensar e frustrado, quase nada feliz.

*


Lucas Sales Viana

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

"Homem de Nada, não é alguma coisa?"


CAP.1
*

É agora. Essa é a hora. Eu repetia aquelas frases dentro da minha cabeça em frente ao espelho do banheiro enquanto via a barba crescer. Apenas olhava para todos aqueles pelos e para os que encravavam. Entre um cravo e outro que ia estourando, pensava em tudo que estava acontecendo e em tudo que acontecera naquele maldito ano.

Aquele momento tornara-se comum. Mais uma noite em claro, mais uma no ano, talvez eu alcançasse ali um novo recorde pessoal naquele, mais um dos ruins. Eu me perguntava até quando iria durar, sabia que estava apanhando e não conseguia reagir. Era covarde, talvez fosse isso. E talvez, naquele momento, eu decidia ali algo grande. Decidi que era para eu começar mais uma vez. Eu criara ali um novo objetivo (era o mesmo no final das contas), eu só precisaria de novos caminhos para chegar nele e novas motivações. E de onde aquele objetivo partiu, eu sabia que a motivação deveria sair de lá também.

E com aquela pouca coragem reunida naqueles dez ou mais minutos em frente ao espelho caminhei de volta ao quarto e não olhei para mais nada, apenas fui até a cama e deitei-me. Mal conseguia piscar, enquanto meus olhos encaravam o teto do quarto dentro de mim eu procurava em cada porta por aquilo que eu sentia falta a um longo tempo e não tinha coragem de procurar, meu equilíbrio, a minha essência. Ela estava ali dentro de mim acuada em algum canto escuro da minha mente, eu precisava procurar por ela. Um homem precisa ter fé em algo. E aquela ideia fixa sobre algo essencial era a minha luz.

E eu continuei naquele ritual mental de procura até a estafa. Apaguei, depois de três dias sem conseguir dormir eu estava finalmente dormindo. E na minha mente eu continuava correndo pelos corredores e abrindo portas e entrando em salas e quartos e porões. Numa das portas algo terrível me acordou, não lembro hoje do que era, acordei assustado e suado, não me sentia bem, sentia uma angústia, um aperto no coração. Era algo ruim, acendi o abajur, procurei por algum copo de água que tivesse deixado pelo quarto, mas só vi uma garrafa de cerveja com pouco mais de um gole de cerveja quente nela, bebi com cara feia, e fui para a máquina de escrever. Mal conseguia andar com todo aquele sono atrasado, mas não queria dormir ainda, pelo menos não enquanto aquilo estivesse por perto.

Sentei, estralei os dedos e procurei por uma folha limpa para colocar na máquina e parei. Olhei por certo tempo para a folha e para as outras que estavam numa pilha ao lado. Vacilei, quase desisti, não queria tentar lembrar o sonho, quero dizer, uma vez eu li que depois de alguns minutos acordado quase todo o nosso sonho é apagado, e ele já estava indo embora assim como a maioria. Decidi tentar.

Não sabia como começar, não sabia se deveria falar somente daquele sonho, ou se deveria fazer mais, tentei uma, terminei e tirei a folha. Li, não gostei e amassei. Tentei com outra da pilha... Tentei mais vezes. Nenhuma parecia boa, meu medo daquilo não me deixava escrever. Olhei para a cama, senti a derrota pelo corpo mais uma vez, precisava me deitar, meu corpo pedia por algumas horas de sono, precisava escrever também, precisava de algo afinal e não tinha nada até ali. Decidi tentar dormir, tirei a folha da máquina, devolvi à pilha e me levantei. Deitei-me...

Em vão. Não conseguia parar de pensar, na verdade não conseguia controlar os pensamentos. Fantasmas rodavam a minha cabeça, continuavam rodando e se multiplicando e gritavam e me arrastavam e bagunçavam as minhas ideias com eles. Levantei-me irritado, fui até o armário, tirei uma garrafa de vodca e um copo de metal guardado por uma toalha pequena, daquelas de rosto. Coloquei uma dose das grandes, pura, precisava de algo forte para me derrubar, andava em voltas com o copo na mão pelo quarto, continuei colocando copo após copo e então ouvi o silêncio dentro da cabeça e a tontura também. Tive uma última ideia. Fui até a máquina, com certa dificuldade coloquei o papel de novo e escrevi uma linha, somente uma e então me deitei. Dormi.

*


Lucas Sales Viana

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Não há mais lua para nós.

E enquanto eu dirigia pelas ruas ao som de Jim Morrison, suas músicas cheias de mensagens e significados me ajudavam a pensar, eu reforçava mentalmente a ideia de não quebrar o meu código, a ideia de ajudá-la independente da nossa situação naquele momento. Tive momentos em que a outra voz me dizia para fazer o retorno na próxima esquina e fingir que nada daquilo havia acontecido. Que eu apenas saíra para comprar alguma garrafa de vodca e algo para comer.
Mas não podia, não era e nem sou covarde, nem tão egoísta quanto ela afirmou uma vez. Então eu estava ali, carro estacionado, chave no bolso, sentimentos no outro e caminhava sem pressa até ela, sentada e falando besteiras e sorrindo para os seus amigos. E na minha cabeça um pensamento. Para que tanto fingimento?
Ela me olhou e me abriu um sorriso fraco e tive ali pena, eu a via chorando por dentro, o seu desespero, e a forma como me via, como um último recurso, um sorriso entre lágrimas. Uma pena. E eu me sentei numa cadeira e fiquei ali calado, sem sorrisos, sem expressões, apenas sentado. Esperando um movimento. E eu respondia a ela. Sim. Não. Vamos, acabe de comer para que eu possa pagar. Os amigos se foram e restamos nós. Esperei repetindo mentalmente alguma música do Vedder. Depois de engolir o último pedaço ela me olhou com aqueles olhos borrados. Ainda vamos nos casar. Não. Procurei por motivos para todo aquele teatro que ela fazia para divertir a todos e  não me veio nenhum e então eu levantei e paguei a conta. Saímos.
Agarrada ao meu ombro ela foi até a sua casa e nós ali conversamos. Insistiu ainda em manter a pose. Fui frio. Quando você vai aprender que eu vejo por essa sua máscara, é inútil seu esforço para se manter com ela e fingir que está tudo bem, olhe para você, veja a merda em que se meteu... E então ela desabou ao perceber que eu estava certo e chorou como nunca antes eu tinha visto, foi a única surpresa.
Comprei água e chocolate, ver uma mulher chorar me parte o coração, e fiquei naquela conversa enquanto ela comia e bebia até melhorar. Ela falou mais uma vez que íamos no casar. É impossível que isso aconteça, pensei. Apenas ignorei e continuei a falar e a balançar de leve a cabeça de forma a negar aquele desejo. Ela percebeu e me perguntou o porquê. Apenas não. Ela entrou.
Voltei tranquilo, calmo no andar, e com pena dela. Nessa caminhada soltei todo o silêncio daquela conversa e fui falando sozinho numa noite sem lua e sem estrelas de uma cidade suja e barulhenta numa rua interditada para uma reforma qualquer, minhas sandálias estavam cheias de areia. Alguém na janela do seu prédio talvez ouvisse aquele solitário lamento com tom de mágoa. Você me virou o rosto quando eu mais precisei, no meu pior momento. Um único teste, e você tomou o caminho errado para nós. Escolheu por você e pelas fantasias plantadas na sua cabeça e foi sem olhar para trás, o que foi cruel. Você nunca olhou para trás em nenhuma das nossas despedidas, isso parte o coração de um homem. E é isso que você tem hoje, você, sozinha e tão somente. E o meu sentimento de pena também.
E é assim que vivemos, minha cara, escolhas, não mais que escolhas, quase todas irreparáveis, sem segunda chance. E numa escolha impensada você tem sua vida virada ao avesso em segundos. Eu sei bem disso.


Lucas Sales Viana