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sábado, novembro 21, 2015

Um brinde ao que não voltará...

"Você está linda!" Eu nos últimos tempos insisto em esquecer de dizer o óbvio, talvez por desleixo, ou por frouxidão, ou por ter essa característica natural de ser acomodado/esquecido.
Desleixado eu sou! Veja só o tempo que eu fiquei longe desse maldito blog, mais de um ano, sem um mísero olá. Desculpas à você e ao blog, afinal muitos desses textos são frutos de momentos ao seu lado, e você sabe disso.
Cá estamos longes outra vez, eu aqui bêbado insone, você aí agarrada à cama, talvez até já sonhando.
Enfim...
“Você é linda!” Todas as fotos e homens já falam isso, é o raso, o superficial, o fácil de ser visto. Se eu pudesse te elogiar agora (tarde demais, Lucas) seria algo arrebatador, daquelas observações que só o meu velho eu era capaz de romantizar.
Algo como:
“Eu nunca deveria te deixar partir, te ver saindo, indo embora, sem sequer te puxar para perto de mim, sem te dar um último beijo, e te lembrar o quanto eu sou louco por ti, o quanto estar contigo me faz bem, rir das besteiras, olhar pros teus olhos e me perder nessa imensidão de sentimentos e sonhos...” AHHHH Foda-se!
Sonhar com você na mesma noite que nos separamos é algo rotineiro, perturbador e amargo. Acordar sozinho nessa cama com a imagem dos seus grandes e lindos olhos me fitando e sorrindo pra mim me enlouquece. Eu me apaixono cada vez mais.
Quase tudo é de se lamentar, as chances perdidas, os caminhos errados e as distâncias desnecessárias que nós mesmo nos impomos. Tudo é de se olhar para trás e sorrir um sorriso nostálgico, ansiando por algo que talvez nunca volte, por aquela oportunidade desperdiçada, aquela que poderia ter mudado tudo...
Mas, nem todas as flores estão mortas, veja só você, voltei a escrever, para sua felicidade e minha má sorte. Depois de tanto ouvir o quanto você gostava de ler as minhas palavras, quase sempre ébrias, e sempre sem sentido. Com a falta de talento usual e a despreocupação gramatical inata eu voltei a escrever. Aquela espontaneidade tola e vazia, a sinceridade escrota e direta e a confusão literária usual ganharam a companhia de um amor velho, magoado e alcoólatra.
Vamos às camas, você à sua, eu à minha.
Amanhã, ou depois, leia isto sabendo que foi para você. Mesmo não tendo lhe dado um simples boa noite, perdoe esse jovem embriagado, com tendência ao romance dramático, que se esquece do básico.


Lucas Sales Viana

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Crônicas Sem Título - 3

Ela dormiu. Olhei para o lado e me apaixonei pela sétima vez naquela simples noite por ela. A primeira enquanto ela me esperava no terminal de desembarque e me procurava com aqueles grandes olhos por entre as janelas do ônibus. Teve também quando ela correu e quase me derrubou quando pulou pros meus braços. A outra quando ela me disse sussurrando ao pé do ouvido um par de coisas bem interessantes para um jovem rapaz há quinze dias longe da sua amada enquanto voltávamos de táxi para a sua nova casa. A quarta quando ela me mostrou as fotos nossas espalhadas no seu novo mural e todas as outras coisas que eu já havia lhe dado em todos os esses anos juntos. A de número cinco foi quando colocamos em teste outra vez as molas da sua cama. Aprovada! E a penúltima quando ela me olhou bem fundo enquanto tomávamos banho. Aquele delicado rosto, olhos grandes, lábios carnudos e sardas suaves espalhadas, com seus lindos cabelos emoldurando-o é algo que eu ainda tenho dificuldades para descrever. Em uma palavra: Mágico.
Saímos do banho, não esperou eu terminar de me enxugar e roubou a minha toalha para enrolar o seu cabelo, enxugou-se com a dela, deu um sorriso malando seguido de um bocejo imprevisto e foi pra cama. Vem, amor, ela disse cansada e feliz. Que opção eu teria? Ela perguntou se eu queria algo para comer. Não, princesa, não precisa. Vamos dormir mesmo. Mesmo dormindo quase todo o trecho, parecia que eu não dormira nada. Sentou-se na cabeceira da cama e se pôs no seu ritual noturno, passar hidratante por todo o corpo. Ela sabia o quanto aquilo me excitava. As molas da cama também já sabiam. Namoramos outra vez.
Terminamos. Ela colocou a cabeça sobre o meu peito. Comecei a fazer cafuné. Vou dormir fácil desse jeito, ela disse. Eu sei, amor. Conversamos sobre as nossas semanas e o quanto estávamos atarefados. Para mim nada disso importava, todo sacrifício era compensado por aquele instante. Ela cochilou. Amor, tá aí? Oi, ela se virou pra mim. Desculpa, cochilei. Sem problemas, vamos dormir? Sim. Me deu o beijo de boa noite e foi para o lado dela da cama. Sorriu uma última vez e disse que me amava. Também te amo. Fechou os olhos.

E ela dormiu.


Lucas Sales Viana

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Crônicas sem título - 2

Cheguei, eu disse. Dez horas de viagem depois eu olhava para ela através da janela. Seus olhos de jabuticaba corriam pelo ônibus tentando em vão encontrar os meus. Era noite e fazia frio naquela pequena rodoviária de formato semicircular. Cansado da viagem, mas com um sorriso escondido no bolso, atravessei o corredor do ônibus até a porta, desci as escadas procurando por aqueles lindos cabelos negros. Lá estava com um sorriso enorme, braços cruzados e pés inquietos. Correu até mim, pulou e se agarrou.
Cheguei, princesa. Bom dia, amor, ela brincou. Bom dia, paixão, completei sorrindo. Vamos pra casa? Me deu um beijo com todo o seu amor e ali ficamos. Por alguns segundos o mundo parou naquilo, naquele jovem casal apaixonado e sonhador. Me soltou e nós fomos até o ponto de táxi. Entramos e ela deu o endereço. Cinco minutos depois e Dez Dilma$ a menos chegamos ao novo apartamento dela.
Amor, não repara na bagunça, ainda não deu tempo de arrumar tudo. Princesa, como tá o nosso quarto? Tá arrumadinho. Vamos bagunçar então. Ela riu. Entramos. Não estava nada bagunçado. Somente as louças, poucas, sujas. Joguei a mochila no chão. Quer água, ela perguntou. Quero você primeiro. Ela riu. Tentou chegar à cozinha, agarrei-a antes e com um beijo desmontei-a. Ela se rendeu ao meus braços. Fomos para o quarto.

Lucas Sales Viana

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Crônicas sem título - 1

Ela mexeu na minha testa. Que susto, eu disse. Eu não consigo mais dormir, posso me deitar com você? Claro. Entrou nas cobertas e se agarrou forte ao meu corpo. Eu não estava acostumado com aquilo. Por razões que pouco importam dormíamos em camas separadas e em quartos separados àquele final de semana. Eu acordei para fazer xixi e quando voltei pra cama não consegui mais pegar no sono. O que houve? Perdi o sono... A de 480 é melhor, amor, ela recomeçou. Quando eles vierem terão um quarto, ela é mais iluminada e ventilada. Mas você adorou a de 400, princesa.  Eu tenho que pensar neles também, não posso ser tão egoísta. Eu sei, paixão. Não tem problema, seja lá qual você escolher, eu vou lhe apoiar e lhe ajudar em tudo, é pra isso que eu estou aqui. Qual você gostou mais? ela perguntou se ajeitando sob a pequena coberta. A de 400, mas se você escolher a outra, ou até a de 550, eu também vou gostar, pouco me importa onde você ficará, eu virei do mesmo jeito e sempre.

Cheirou-me a barba e disse que me amava. Ficamos ali deitados e em silêncio por alguns minutos naquela pequena cama de solteiro jogada ao chão. Eu de olhos fechados e com a cabeça a mil, ela talvez olhando naquele escuro para o que poderia ser a minha orelha, ou talvez ela estivesse igual a mim, tentando decidir qual caminho escolher. Não consegui mais dormir, mas também não abria os olhos, nem falava nada, apenas senti aquele momento e toda aquela insegurança. Vai dar tudo certo, você vai ver, eu te prometo isso, garanti. Virei e encaixei meu corpo ao dela. Ficamos naquela posição e até dormiríamos... Vou pro meu quarto, é melhor, né? Tudo bem, eu disse. E lá se foi ela levando nosso calor juntos.


Lucas Sales Viana

segunda-feira, março 25, 2013

Quinze dias sem ela - Dia Primeiro.

Preso aqui no aeroporto, à espera da conexão, me vejo sem outra opção a não ser esta, escrever o que me vier a mente. Escrever para que se passem quatro horas "rápidas", maldita hora em que não conferi os horários de voo. Frustração é a palavra de ordem.

Mais frustrante que isso é a certeza de não poder tê-la trazido, e a certeza de que ela estará lá sentada e olhando para o quadro branco tentando absorver qualquer coisa que o professor tentar empurrar. Uma tentativa válida para um objetivo que pode parecer distante, mas não o é. Talvez ela esteja roendo uma unha enquanto fica conferindo o celular na esperança de ter notícias minhas, talvez ela esteja na segunda unha, ou na segunda mão.

À minha frente um casal de jovens, um rapaz branco de pulseira preta no pulso esquerdo com detalhes em prata, bem apresentado, e uma garota de cabelos curtos de fogo, à altura do ombro, branca como as nuvens do céu e de camiseta verde e shorts que por pouco não lhe fazem aparecer o começo da bunda, namoram enquanto lancham. Talvez estejam esperando por uma conexão assim como eu. Linda. Mas não interessante.

Será que a minha morena de olhos de jabuticaba está pensando em mim nesse exato momento em que estou aqui a pensar nela enquanto olho esse feliz casal saindo? Mal sabe ela do que sinto agora e da voz ao fundo que me grita para pegar o primeiro voo de volta à cidade natal.

Mas não devo, devo ficar e voar por duas horas rumo a outra cidade, e dessa cidade pegar um carro e passar pouco mais de três horas para só então chegar ao destino final. Até lá eu respiro fundo e mastigo chicletes e ouço música e batuco na mesa do aeroporto para tentar controlar essa ansiedade filha da puta. E para quando nada disso funcionar, o banheiro fica logo ali.

E nessa tentativa de escrita ela não poderia deixar de aparecer, a minha quase íntima amiga, a falta de inspiração. Aquele vazio que me faz, enquanto escrevo, ou pelo menos tento, uma mísera página, dividir a atenção entre as minhas unhas roídas e o grupo de pardais que se aproximam das mesas do centro de alimentação em busca de migalhas. Eles andam a pular e a derrapar no liso piso e a bicar qualquer mínimo pedaço que lhes pareçam com comida.

Até os pardais andam em casais e eu aqui, no meio dessa multidão, só. Ah, que falta ela me faz. Falta, saudades, carência, chame como quiser. O sentimento é o de querer estar ao lado dela, seja deitados e namorando na nossa cama, seja dirigindo enquanto ela me olha com aqueles grandes olhos, seja vendo filme e roubando alguns beijos enquanto roda a parte chata.

Acho que no final das contas essa escrita acabou ficando para ela, uma pena mais uma vez não poder estar lá. Espero que esteja prestando atenção bem à aula de hoje, e que preste também nas que se seguirão durante essas duas semanas.

Será que já leu a primeira carta? Ou vai esperar pela noite? São apenas quinze, e quando menos perceber, lá estarei.

Fim do texto, mas ainda me restam quase as mesmas intermináveis quatro horas de espera...

O capitalismo se transformou numa merda mesmo.


Ps: Não me pergunte o por que dessa frase final, talvez seja apenas mais um produto da minha frustração.


Lucas Sales Viana

terça-feira, maio 29, 2012

"Ela é louca..."


E sem nenhuma vontade eu me arrumava para sair naquela noite. Eu só queria ficar quieto, ler algum livro, ficar bêbado enquanto escrevia qualquer coisa, dormir ao som dos grilos que se escondiam atrás dos armários. No entanto, lá estava eu noutro apartamento, de um qualquer, ao telefone com o pai dela, que não fazia nenhum esforço para demonstrar gosto por me ver com ela.

- Eu cuido dela, ela vai ficar comigo durante a festa, e vai voltar comigo... Entendo a sua preocupação, é a sua filha (minha namorada, pensei)... Certo, vou deixá-la aí mais tarde, como quiser... Boa noite.

Horas depois estava lá eu na fila para conseguir entrar. Com um copo de cerveja morna na mão, esperava por ela e mais suas amigas chegarem jogando conversa fora com um bando de garotos mais novos que eu. Eu só conseguia pensar na minha cama e no meu copo favorito cheio de vodca e em que diabos de hora aquela garota ia aparecer afinal. Eu sorria em silêncio para o grupo enquanto eles se vangloriavam sobre qualquer merda que não lembro agora.

Finalmente ela ligou, eu já estava lá dentro, esperando-a com as entradas na mão, e ela estava lá fora, com toda aquela fila e com todas aquelas amigas. O que eu faria então? Não podia perder os ingressos, não podia mais sair para acompanhá-la numa enorme fila (eu até poderia, mas não estava com saco para mimá-la mais uma vez), decidi ficar ali mesmo, olhando para ela e para os lados e pensando em algo mais fácil. Veio-me a ideia, era interessante, hora do show. Conversar com as pessoas desconhecidas nunca me agradou, e às vezes nem mesmo com as conhecidas, a não ser para tirar favores delas, eu podia ser muito bom nisso. E lá estava eu de papo com o armário de quase dois metros de altura vestido com um paletó barato e gasto nas extremidades.

- Ela está comigo, amigo. - Apontei para a minha garota. – Ela inventou de sair da fila só pra se encontrar com as amigas e acabou se perdendo de mim. Abre aí para ela entrar. - Eu tinha ao meu lado um dos organizadores da festa, amigo de longa data, era o meu ponto de verdade em toda aquela inocente mentira. Ele acenou pro segurança, e o armário saiu do meio, elas entraram.

Mentir sempre foi uma das minhas melhores habilidades, eu estava um pouco enferrujado, não mentia há muito tempo, somente por ela.  Veja só, um homem é louco o suficiente por uma mulher quando abre mão de algo da sua natureza por ela, somente para vê-la sorrir. Bastava um sorriso dela e eu estava hipnotizado. Todas aquelas gargalhadas, aquelas pequenas rugas que ser formavam perto ao redor daqueles pequenos olhos verde-mel que se fechavam com todas aquelas risadas e tantos outros detalhes que aos poucos foram sumindo da minha memória cada vez que eu beijava o álcool desde o fim.

Cenas quaisquer se passaram e lá estávamos dentro da festa, eu com ela, ela com duas amigas coladas, e minha paciência dentro do quarto, assistindo futebol e segurando uma cerveja gelada. Uma amiga dela qualquer insistia em tirá-la de mim, e eu não estava com saco para joguinhos infantis, tirei a carteira, virei às costas para elas e fui ao bar, precisava de mais cerveja.

- Ô, amigo, desce uma bem gelada!

- Só tem lata, senhor.

- Lata gelada?

- Sim.

- Serve.

Abri e dei um gole, todo aquele liquido gelado e espumoso descendo pela minha garganta me fez sorrir. Eu sorria para uma cerveja, eu era um idiota. A minha garota dançava no meio da pista com as amigas e entre um gingado de cabelo e um sorriso para as amigas, ela procurava por mim sem sucesso, eu estava sentado no bar, afundado numa das cadeiras do balcão apenas rindo e assistindo ela dançar e me procurar, e pensando talvez no meu quarto e na minha máquina.

Terminei a primeira lata e paguei logo pela segunda. Ela veio mais gelada, eu estava mais feliz. Continuava sentado assistindo, até dois garotos se aproximarem da minha garota e da amiga mimada. Eu ria enquanto minha garota procurava aflita por mim. Os caras estavam sendo educados, eu não via problema nisso, afinal ela era linda. Ela via problema nisso, me caçou com os olhos por toda a pista enquanto arranjava tempo para dar seguidos foras no cara, contei quinze ‘nãos’ saindo daquela delicada boca e então levantei o braço para que ela conseguisse me achar. Ela me viu e me fuzilou com os olhos, eu ri, ela entrou na minha mente com um 'VEM LOGO, PORRA!' e eu balancei a cabeça. 'OK!'. Peguei minha cerveja, levantei e fui até ela, bati no ombro do cara.


- Hey, garoto, ela tá comigo. Eu estampava o maior sorriso sarcástico.

- Você é o namorado dela? Ele ainda tentava me desafiar... Ò, garoto inocente e idiota... Peguei-a pela cintura, puxei-a até o meu corpo e ainda segurando a lata com a mão esquerda, enfiei minha língua na boca dela.

-Okay! Desculpa aí, cara, não sabia que ela tinha namorado...

Ainda com a minha boca na dela, apenas levantei a cerveja e destaquei o dedo do meio para o garoto.

Primeira hora da madrugada e eu saía da festa com a quinta lata na mão, com o saco cheio por causa de uma discussão boba, com um dos botões da camisa rasgado por uma desconhecida e bêbada e tarada qualquer. Chamei um táxi.

- Boa noite, senhor!

- Me leva pra casa, amigo, não to com saco pra conversar. – Dei meu endereço e afundei no banco de trás.

- Mulher? – O taxista perguntou olhando pelo retrovisor central do carro.

- Ela é louca... – dei o último gole na cerveja, baixei o vidro, atirei a lata e levantei o vidro. Fechei os olhos 
e fingi dormir, não queria papo com ninguém, só queria entrar na minha cama.

'Ela é louca, e eu, idiota por ela.' Foi o último pensamento antes de tirar a roupa e entrar nas cobertas só de cueca.


Lucas Sales Viana

domingo, maio 06, 2012

Um coração partido e um homem fodido.

Numa noite tão especial e única a cada ano, em que a lua, que me é sempre tão linda e mística quando cheia, resolveu aparecer maior e de um brilho ofuscante e com uma beleza tal que por diversas vezes me fez parar hoje para admirá-la. Apenas erguia a vista ao céu, parava de pensar em tudo, uma de minhas tantas maldições, e passava a sentir algo bom que vinha daquela grande bola branca, eram curtos momentos de vacuidade.

Era noite de um dia inteiro de enxaqueca, sinto que não me servem mais esses óculos, mesmo assim todo aquele brilho não me incomodava. Eu ia sendo levado a um passeio em 'família', e tudo que me interessava era apenas ficar ali olhando pela janela do carro para o céu, me sentia infantil por fazer aquilo, mas me sentia feliz.

Eu poderia dizer que a noite foi completa ao, casualmente, entrar sem esperanças alguma, apenas por costume, na livraria de sempre e procurar entre os livros por algum exemplar de qualquer livro que ainda não tenha lido do 'velho safado'. Era uma noite única aquela, eu tinha exatamente ali quase todos os livros que me faltam ler a minha disposição, um sorriso me escapou e peguei logo três dele e um de Dostoievsky, mas não poderia comprar todos.

'As Mulheres' e 'O amor é um cão dos diabos' do Buko vieram, os outros terão que esperar por mais dinheiro, maldito dinheiro. Mas não importa, eu tenho o tempo ao meu lado. Aos poucos então eu vou lendo e conhecendo e me descobrindo dentro dos dois, de todos os já que lera.

Entrei nas mulheres do velho, com todo respeito a você, a elas e a ele, e me perdi nelas, lembrei-me da minha mais uma vez naquele dia, tentei ligar, mas sem sucesso, não é um dia de tanta sorte assim então. Pelo computador, consegui falar com você, mas eu estava longe, talvez na Lua. Você, minha garota, parecia cansada, foi para cama, me deu então um boa noite e um beijo. E eu fiquei com elas... E como Chinaski fala logo no começo da obra, 'Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher.' A verdade dura da vida. Um coração partido e um homem fodido. Muito fodido.

É madrugada então de um novo dia, a lua continua cheia e brilhante como se não fosse outro dia, mas sim, é um outro dia, estamos em um domingo, mais um domingo nauseante como todos os domingos são. E algo me parecia incomodar aqui dentro, aquela sensação de 'estou esquecendo de algo'. Foi preciso mais de uma hora com essa coisa na cabeça e um aviso numa rede social para saber que hoje, seis, é o aniversário seu, a minha amada.

E como eu me sinto ao saber disso? Um lixo. Ou pelo menos um completo esquecido narcisista. Eu passei todo o sábado a lembrar de você, ao acordar e colocar a aliança no dedo já marcado, ao escovar os dentes e lembrar dos momentos em que escovamos os dentes juntos, jogando pasta um no outro e pedindo beijos com a boca cheia de espuma (tosco de fato, porém hilário). Ao pegar uma camisa branca limpa para vestir e vê-la vestida só com aquela mesma camisa. E então finalmente conseguir tomar um café segurando o riso bobo de quem está apaixonado por lembrar das besteiras que fazemos enquanto comemos.

Agora ela está sentada fazendo um simulado e eu estou aqui sentado assistindo um programa qualquer enquanto como, espero que ela esteja se saindo bem, não posso deixar de ligar mais tarde para ela. Cinco minutos depois e me veio a lembrança de que você sairia com suas amigas depois disso. Melhor não ligar, não quero atrapalhar esse momento. E caí nos livros. Qualquer coisa que me ajudasse a me desligar um pouco de você servia e foi servindo. Chegou a noite e eu me vi dentro do chuveiro, e mais uma lembrança me veio. Acho que ela já deve estar em casa, vou ligar quando voltar das compras, deve ser rápido, consigo falar com ela antes das dez. Eu estava ali tirando todos os pelos que sempre incomodam a você e à minha pequena irmã.

Faltava sete para as onze, eu estava em casa finalmente, nada saiu como o planejado, mas eu tinha um novo par de tênis para jogar, dois livros novos para ler, uma barriga cheia com o meu sanduíche favorito e um grande copo de coca e um biscoito com gotas de chocolate. Talvez ela ainda esteja acordada, não custa nada tentar. Mas o sinal do celular nesse local e nada é a mesma coisa, eu tinha em mãos um aparelho que só servia para uma emergência. Eu tinha nada afinal.

Liguei o computador e lá estava você, cansada e de poucas palavras, eu queria estar com você, cuidar de você. Mas, mesmo assim, eu não sabia que hoje era o seu aniversário, não até ver um aviso numa rede social qualquer. E como eu me sinto ao saber disso? Nada surpreso. Não consigo decorar os aniversários, sempre fui péssimo com datas, não seria hoje diferente. Mas eu me sinto ruim por não ter passado a véspera dele com você, mesmo que acompanhado das suas amigas. Não que seja isso ruim, mas apenas não conheço-as, e não sou tão fácil de lidar, você bem sabe disso.

E então chegamos a hora de agora, e o que eu devo fazer? Dormir, só me resta dormir. Talvez conhecer alguma mulher do velho em vão, pois nenhuma me interessa. Só você, meus olhos são pra você, e ouvidos e boca e corpo.

Amanhã as nove horas em ponto da manhã o celular irá me avisar que hoje é o seu dia. Mas para esse bobo que te ama, todos os dias são seus e sempre serão por mais que minha faculdade tome boa parte deles.

Então espero que você esteja esperando por uma ligação minha daqui a algumas horas, de certo que será pela tarde, não pela manhã por saber que você ainda tem outro simulado para fazer. Mas não duvide de ter aquela mensagem matinal no seu novo celular. Não espere por surpresa, ou espere, nunca se sabe o que pode surgir de um coração que ama.

Acho que posso terminar por aqui, mas não por hoje.



Lucas Sales Viana

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Não há mais lua para nós.

E enquanto eu dirigia pelas ruas ao som de Jim Morrison, suas músicas cheias de mensagens e significados me ajudavam a pensar, eu reforçava mentalmente a ideia de não quebrar o meu código, a ideia de ajudá-la independente da nossa situação naquele momento. Tive momentos em que a outra voz me dizia para fazer o retorno na próxima esquina e fingir que nada daquilo havia acontecido. Que eu apenas saíra para comprar alguma garrafa de vodca e algo para comer.
Mas não podia, não era e nem sou covarde, nem tão egoísta quanto ela afirmou uma vez. Então eu estava ali, carro estacionado, chave no bolso, sentimentos no outro e caminhava sem pressa até ela, sentada e falando besteiras e sorrindo para os seus amigos. E na minha cabeça um pensamento. Para que tanto fingimento?
Ela me olhou e me abriu um sorriso fraco e tive ali pena, eu a via chorando por dentro, o seu desespero, e a forma como me via, como um último recurso, um sorriso entre lágrimas. Uma pena. E eu me sentei numa cadeira e fiquei ali calado, sem sorrisos, sem expressões, apenas sentado. Esperando um movimento. E eu respondia a ela. Sim. Não. Vamos, acabe de comer para que eu possa pagar. Os amigos se foram e restamos nós. Esperei repetindo mentalmente alguma música do Vedder. Depois de engolir o último pedaço ela me olhou com aqueles olhos borrados. Ainda vamos nos casar. Não. Procurei por motivos para todo aquele teatro que ela fazia para divertir a todos e  não me veio nenhum e então eu levantei e paguei a conta. Saímos.
Agarrada ao meu ombro ela foi até a sua casa e nós ali conversamos. Insistiu ainda em manter a pose. Fui frio. Quando você vai aprender que eu vejo por essa sua máscara, é inútil seu esforço para se manter com ela e fingir que está tudo bem, olhe para você, veja a merda em que se meteu... E então ela desabou ao perceber que eu estava certo e chorou como nunca antes eu tinha visto, foi a única surpresa.
Comprei água e chocolate, ver uma mulher chorar me parte o coração, e fiquei naquela conversa enquanto ela comia e bebia até melhorar. Ela falou mais uma vez que íamos no casar. É impossível que isso aconteça, pensei. Apenas ignorei e continuei a falar e a balançar de leve a cabeça de forma a negar aquele desejo. Ela percebeu e me perguntou o porquê. Apenas não. Ela entrou.
Voltei tranquilo, calmo no andar, e com pena dela. Nessa caminhada soltei todo o silêncio daquela conversa e fui falando sozinho numa noite sem lua e sem estrelas de uma cidade suja e barulhenta numa rua interditada para uma reforma qualquer, minhas sandálias estavam cheias de areia. Alguém na janela do seu prédio talvez ouvisse aquele solitário lamento com tom de mágoa. Você me virou o rosto quando eu mais precisei, no meu pior momento. Um único teste, e você tomou o caminho errado para nós. Escolheu por você e pelas fantasias plantadas na sua cabeça e foi sem olhar para trás, o que foi cruel. Você nunca olhou para trás em nenhuma das nossas despedidas, isso parte o coração de um homem. E é isso que você tem hoje, você, sozinha e tão somente. E o meu sentimento de pena também.
E é assim que vivemos, minha cara, escolhas, não mais que escolhas, quase todas irreparáveis, sem segunda chance. E numa escolha impensada você tem sua vida virada ao avesso em segundos. Eu sei bem disso.


Lucas Sales Viana

sábado, janeiro 14, 2012

"Estou com você..."

Ele pensava em tudo que já falara para ela e o quanto não gostava das despedidas e de toda a dificuldade que ele tem em se despedir dela em especial. Por mais que passassem horas juntos num dia, ou horas ao telefone ou até mesmo pelo skype, em todas as vezes que precisava se despedir não conseguia fazê-lo tão fácil.

E enquanto ouvia uma música depois de terminar uma ligação dela percebeu aquilo, aquele incômodo de toda despedida e então soube explicar e falou ali mesmo, sozinho, ninguém para ouvir além dele, ela já estaria deitada, ou buscando um copo d'água, ou escovando os dentes antes de ir à cama...

Ele via na sua frente em filme tudo que já acontecera a eles, todos os empecilhos, todas as discussões, os desencontros e então todo o esforço dos dois para se reconquistarem em oportunidades diferentes. O dia em que a viu pela primeira vez na frente daquele colégio. O dia em que ela educadamente o dispensou. Os dias em que ele bem depois tentou voltar a falar com ela e a chamar para sair que lhe renderam lindos 'bolos'. O dia em que ela lhe foi sincera como nunca e como ele ficou em choque. O dia em que ele de forma estúpida a dispensou. As semanas em que ele ficou louco ao perceber a merda que fizera. Os meses em que ele passou para tentar reconquistar aquela que era a melhor de todas. E todos os dias em que ele não deixa de pensar em como conquistá-la mais e mais.

E a música acabou, olhou para aquela aliança na mão direita e lembrou daquele dia, reiniciou a música e continuou a lembrar e então sabia o que escrever, encontrara um pouco de água naquele poço quase seco.

*

E depois de tudo que já passamos nesses dois anos, desencontros, encontros, e então isso. ISSO! Finalmente vimos o quanto somos importantes para o outro, o quanto nos amamos, o amor que construímos nesses meses juntos é algo único, algo que eu nunca tive e nunca dei, verdadeiro, mágico.

E só tem uma coisa que me incomoda nisso tudo, me despedir de você, ouvir você se despedindo no telefone, ver você saindo dos meus braços, seus lábios indo noutra direção dos meus, você abrindo a porta do meu carro e saindo por ela, ver você saindo pela 'nossa' porta. E a cada dia eu sinto nosso amor crescer. E toda vez que você passa por aquela porta, um medo bobo me corre a espinha, de não te ver, nem te abraçar nunca mais. Só fique comigo mais um pouco, quero nossos sorrisos alegres em frente ao nosso espelho mais uma vez.

*


Lucas Sales Viana

quinta-feira, agosto 11, 2011

Que culpa tenho eu?

...Eu só não queria magoar ninguém, sabe?! Não quero ser um cara mau, eu não me acho mau, algumas vezes... Quero dizer, que culpa eu tenho de amar todas as mulheres, eu já descobri isso, eu sempre me apaixonei pelas mulheres, não importa se foram por alguns minutos, ou um mês, ou até anos...

E você sente algo por alguma nesse momento? Ela me perguntou. Como assim? Sabe sentimento, aquela coisa de fazer bater o coração mais forte... Tá vendo, esse é o problema, colocar o coração assim, tão rápido, fode tudo, isso me assusta, eu sou mais devagar, a única vez que eu me apressei foi por aquela garota e veja onde eu fui parar... Não é suficiente eu apenas gostar?

É claro que não! Você sabe bem como é uma mulher, eu sei que você sabe, não vem querer se fazer de tonto agora. Você vacila quando ilude uma garota... Eu não iludi ninguém, caramba, eu apenas fui eu... Quero dizer, eu tenho culpa de agora ser assim, eu apenas falo o que eu quero, beijo como eu quero, faço carinho como eu quero, antes eu tentava muito forçar algo que eu não sou, e isso era um saco, o que falar, o quanto beijar, até onde colocar a mão, no que ela vai pensar, era muito cansativo e nada prazeroso essa merda toda.

Mas mulher não funciona assim, você sabe, eu não sei o que aconteceu nesses dias em que você se afastou, mas isso não muda os fatos, uma garota precisa de uma certa reciprocidade, precisa saber que o cara que ela gosta vai estar lá... Mas eu estou lá, droga, eu estou lá, olhando e beijando e sussurrando ao ouvido e mordendo e afagando e provocando e todo o resto, agora eu não posso ir contra mim, é como você disse, precisa de sentimento, e nesse momento é algo que não consta na minha lista de prioridades.

Você não sente nada por ninguém? Seu coração não bate mais forte por ninguém? Caramba, eu já te falei sobre isso e o quanto me machucou, você bem se lembra de como eu estava, foi uma das piores sensações, ninguém deve nunca fazer aquilo com alguém, ninguém deve nunca deixar o vazio que ela deixou por sei lá que raios de motivo...

O que ela fez foi péssimo, amigo, mas não foi só culpa dela, você também fez merda... Sim, eu sei disso, mas eu não sou perfeito, caramba. Eu fiz muita merda, eu menti pra caralho, mas sempre pensando em tentar ser o melhor pra ela e, mais uma vez, veja no que deu... Agora me responde, você é uma das poucas em que eu confio e me importo, eu sou um cara mau, um cafajeste?

Assim, eu acho que ninguém muda, apenas se descobre. Ela me disse. Você não é um cafajeste, sinceramente, você é um dos melhores caras que eu conheço, a forma como trata as mulheres é impressionante, você se importa, até com aquela que, digamos, causou tudo isso. Só vacilou dessa vez por enquanto...

E é por isso que eu amo as mulheres...


Lucas Sales Viana

sábado, julho 09, 2011

Pode ser?

Um homem pode ser ótimo em lembrar rostos e péssimo com nomes, mas não é de todo ruim quando, por ele, cada rosto guardado tem um nome dado. O moleque de cabelo loiro e espetado e com espinhas no rosto, a garota canhota do sofá com um violão, a menina que parece ser mais bonita por foto, o cara de olhos puxados que corre como o vento, a garota pequena de sorriso contagiante... E tem também aquela bela garota de cabelos longos e lisos e negros e de óculos escuros e camiseta branca e solta, denunciando um belo par de seios, e calças jeans coladas (que pernas!) dentro de um ônibus.

Um homem pode ser sortudo, ou não, ao entrar pela segunda vez pela porta da nova sala da nova faculdade do novo curso, após tomar alguns goles de água que saíram do novo bebedor e reconhecer aquele rosto sentado numa das cadeiras da sala da sua nova faculdade, no “primeiro” dia de aula. A garota sentada estava a duas cadeiras da mochila dele com uma camisa negra e sem os óculos. Nossa! Que olhos são esses, meu amigo. A conhece, ouve o nome daquele rosto e percebe um curioso sotaque, doutra região. Os novos colegas e futuros amigos começam a chegar e a ocupar os vazios entre eles e ele lembra que namora então.

Um homem pode ser louco ao convidar tal garota pra sair, buscá-la na sua nova casa e perceber o ciúme da sua então garota sentada no banco do passageiro. Chegar a um bar e sentar-se numa das mesas do restaurante ao lado, enquanto espera pelos amigos que ainda não chegaram, ele em um lado, tal morena à sua frente e a namorada ao lado esquerdo dele, e, de forma discreta, ou não tão discreta o suficiente, encarar por alguns instantes aquele belo decote enquanto ela escolhe alguma coisa no cardápio é o suficiente para um olhar irado e um cutucão por debaixo da mesa. Sentir um certo incômodo ao ver a garota ficando com outro é o máximo.

Um homem pode ser cego ao não ver o que está na frente dele, a ignorar os discretos e rápidos sinais que escapam vez por outra durante as conversas, uma brincadeira, ou um olhar mais longo, e surdo ao não ouvir o que os novos amigos falam sobre essas “brincadeiras” e essa amizade um pouco diferente, e mudo ao não falar nada em diversas oportunidades por receio de que momentos passados e devera ruins voltassem a ocorrer com tal. Lutar contra a realidade dos fatos se faz fácil quando acordado, entretanto, resistir a um incomum sonho que o faz acordar com os olhos dessa na sua cabeça é impossível.

E um homem não pode ser idiota o suficiente para estragar qualquer tentativa de aproximação dessa pessoa, não depois da sua natureza gritar e mostrar de forma bem clara o que deve ser feito. Ou pode?


Lucas Sales Viana

segunda-feira, maio 23, 2011

A última oração...

É estranho ainda para mim a forma como eu escrevo, como eu tento criar, ou, simplesmente, reproduzir algo ocorrido comigo ou visto por mim, todos tem um tanto de dificuldade.

Elas me disseram, talvez por brincadeira, que eu estava apaixonado por ti, e isso não é de todo verdade. “Coração não é tão simples quanto pensa”, eu por horas penso não ter mais um, devido à... Ah! Você sabe... Mas, droga, era pra ter sido só um sonho, era pra nem ter sido... Por que tem que ser assim, por que não se pode somente dormir e acordar, como se nada acontecesse nesse intervalo, seria tão mais fácil para todos.

Eu sempre falo que tudo é complicado, talvez nem seja, mas talvez seja, veja só, depois desse tempo, seria complicado (para mim) chegar à ti e dizer que ela, na verdade, eras tu. Imagines só a cena: Eu a chegar e a ti olhar, tu sempre bela e com esse olhar que me complica. Teria eu que falar ao teu ouvido que és tu a de olhar único, falar-te que foste o meu sonho, o meu texto, o meu dia.

E olharias para mim e pensarias e... E eu não sei o que poderia sair da tua boca, talvez um “sim”, ou um “não, não me interessas”, ou o clássico, e quase automático, “talvez”, o que seria deveras engraçado. Depois de toda uma declaração assumida, tu me vires com um confuso “talvez”, sim, seria divertido, eu iria dar um sorriso, afinal eu sei que somos por natureza complicados e indecisos.

Mas, com toda a certeza, isso não irá ocorrer, não por agora, eu preciso, por uma questão de cuidados, afinal eu já me arrisquei a pular e caí feio uma, duas vezes, você bem sabe disso, esperar um tempo para ter uma certeza maior, afinal, nós precisamos, na nossa mediocridade masculina e medrosa, vetorizar um sentimento, porcentá-lo (talvez nem exista esse verbo) para então sabermos se nos vale, ou não, tirar a máscara.

Ah... essas malditas máscaras, esses sentimentos, esses medos, esses textos, esse tudo... e amanhã é outro dia, óbvio, tão óbvio quanto saber que aqueles mesmos olhos estarão logo ali, volta e meia, olhando para mim e... Já sei como resolver isso.


Lucas Sales Viana

terça-feira, abril 12, 2011

Hércules é um poeta.

Terça-feira, fim de tarde, inicio de noite, livros espalhados sobre a mesa, caderno, lapiseira, caneta e borracha, notebook aberto, Plant cantando. Que merda, eu preciso ir malhar, preciso esquecer essa prova de amanhã. Tênis, bermudão, camiseta regata, luvas... Não, deixa as luvas aí. Chave da casa e do carro. É mais rápido, eu ainda preciso terminar o trabalho daquela coroa gostosa.

Cinco minutos mais tarde, estacionar o carro ao lado da academia. Eu soube que você terminou o namoro, como você “tá”? Não sei, acho que bem. Terminou o namoro, cara? Foi, Hércules. Relaxa, irmão, acontece, vai lá malhar. Alongamento, aquecimento, ficha de instrução. Peito e tríceps hoje. Droga, meu braço ainda dói, que se foda! Supino reto, cinquenta quilos. Quer um toque, velho? Pode ser.

Série um, dois, três e quatro. Crucifixo sentado. Cara, vocês sempre se deram bem, o que foi que você fez? Briguei feio, falei de mais, falei merda, daí, sem retorno, cara, fim da linha, pelo menos naquela hora. E ela? Ela? Ela tá lá, não tenho a menor ideia de como ela deve tá, mas deve tá bem,
pelo menos foi o que a amiga dela me falou.

Pausa para a água. Mais uma máquina e outra, água, ler o jornal, zoar o time colorido dos colegas. Rumores de festa surgem. Deixa eu voltar pra minha musculação.

Tríceps P.S. Série um, dois, três, quatro. Hey, Carlo, ânimo, quer um conselho? Manda, Hércules. Tríceps Francês. Como foi o fim? Série um. Foi foda, briga feia. Mas você ainda gosta da menina, claro, né?! É, né. Série dois. Te digo uma coisa, você pode escolher entre ficar remoendo o passado, em como podia ser diferente, ou pode seguir em frente, procurar por alguém que realmente valha à pena, entende? Entendo, velho. Série três. Coice. Um, dois, três, fim.

Água e alongamento. Carlo! Manda, Hércules. Mulher é igual biscoito, vai um, vem dezoito. Risos pela academia. Mas, falando sério, pensa sobre o que eu te falei, você tem duas opções, pensa bem... Valeu, Hércules, vou me lembrar dessa frase filosófica. Abraço, velho. Carro, casa, banho e janta.

Quarto, mesa, notebook aberto, música pausada. Ótimo, ninguém falou comigo, nenhuma ligação. Começar os desenhos. Desenha o primeiro. Merda de desenho, encaixa, porra! Segundo. Que merda, não sei nem por onde começar. Pausa. Abre o notebook, fala com ela. Frieza, indiferença, rancor. Preciso do meu casaco, só isso, você nem usa mais. De volta ao Desenho.

Desenho 4. Esse foi fácil, faltou só essa parte, eu vejo isso amanhã. Desenho 3. Trabalhoso, mas está feito. Merda, qual das duas opções eu escolho? Preciso terminar o dois ainda. E que merda de frase é aquela do Hércules?! Pausa para uma pequena escrita. Faz tempo que não escrevo nada de interessante... como se isso fosse, enfim... No final das contas eu fico com a opção número três.

Lucas Sales Viana

segunda-feira, novembro 08, 2010

Eu deveria?

Meia noite de um domingo desprezível, um domingo gastado a ler, a corrigir e a dar notas a textos, textos escritos por obrigação, abria a gaveta e tirava um texto, lia, corrigia, dava notas, assim, mecânico, sem graça, mas que dava dinheiro, dinheiro que seria usado para uma boa causa, comprar novas bebidas, estávamos ficando sem bebida, e isso era ruim.
Era um silêncio bom para os solitários, fazia frio, até o telefone gritar me lembrando que alguém ligava. Hey, acho que deveríamos sair? Deveríamos? É, deveríamos. Aonde? Que tal aquela bar? Quem vai? Alguns amigos. É, poderá ser legal.
Vai? Vou, quer carona? Não, obrigado, vou com meu namorado. Certo, chego lá em alguns minutos.
Sentamos naquela mesa enorme, pedimos bebidas, alguns iam de cerveja, outros, vodca, outros, outras. Hey, acho que você deveria conhecer aquela minha amiga? Deveria? Claro que deveria! Então, tá. Vem comigo, eu te apresento. Certo.
Hey, Taís, esse é o Carlo. Carlo, essa é a Taís. Oi. Olá. Elas conversavam sobre alguma coisa que eu não lembro, só me importava com o meu copo até ser interrompido. Hey, Carlo, o que você faz? Nada, e você? Como assim nada, você não tem um trabalho? Ele é escritor. Sério, você escreve? É, grandes bostas. Escreve sobre o quê? Qualquer coisa que vem a minha cabeça, e você faz o que? Sou médica. Hum, bem legal. Hey, me chamam ali, posso deixar vocês sozinhos? Vá lá.
Fiquei em silêncio olhando para o fundo do meu copo, aqueles gelos pediam por outra dose, eu podia ouvir. Ela pedia por atenção, não sei por qual motivo, mas ela queria a minha. Nunca conheci um escritor? Nem eu. Você sempre quis ser escritor? Você sempre quis ser médica? Claro, desde pequena. Bom para você. Você escreve sobre o quê? Já disse, qualquer coisa, até uma conversa entre duas pessoas pode virar um texto. Você está falando sério? Sim. Quer dizer que eu poderia ser uma personagem em um dos seus textos? Talvez, só não sei onde está a parte boa disso. E o que você falaria de mim no seu texto? De você, nada, da sua personagem, diria que deveria ser mais natural, o natural é belo. Conversamos por algum tempo e lembro de rir com ela. Hey, como estão indo? Estamos bem, eu acho. Ótimo, isso tudo é ótimo, vou deixar vocês conversando a sós. Àquela hora, já podia sentir que ela não era tão igual as outras, ou talvez eu estivesse bêbado.
E quando você começou a escrever? Faz um tempo, eu ainda era bem novo, comecei por uma garota, como todo bom otário que faz algo estúpido por uma garota, e, não, não vou falar sobre isso. Ótimo, não quero saber sobre essa. Interessante. Eu olhei para as horas, e, droga, já era tarde, e eu tinha aquelas provas. Taís, eu tenho que ir. Por quê? Eu sou professor e tenho provas pra corrigir e dar notas. É uma pena. É,  também acho, mas acho também que deveríamos sair outras vezes, se você quiser. Claro que deveríamos, aqui o meu número. E ela o anotou, colocou-o num dos bolsos da camisa e me beijou. Retribui e saí. Já tinha chegado ao carro. Eu terei um texto? Acho que sim. De volta aos textos.


Lucas Sales Viana

sábado, novembro 06, 2010

Quem é você?

Era noite, umas três e vinte de acordo com os números da tela ofuscante do celular, acordou no meio de um dos sonhos mais estranhos que já teve, sem o suor, sem se levantar da cama, sem gritar como aparecem nos filmes, apenas abriu os olhos assustados e confusos. Forçou a memória para tentar lembrar aquele rosto. Como eu posso sonhar sem um rosto? Não conseguiu. Porra, mais tarde tem aula, tenho que dormir. Dormiu.
Acordou, horas mais tarde, atrasado para a aula. Correu para o banheiro, mijou, lavou o rosto, passou a escova nos dentes, deu dois tapas no cabelo para pentear e saiu. Foi a cozinha, abriu a geladeira, pegou a garrafa com água e bebeu a metade, salvou uma maçã lá de baixo e lavou-a na torneira, deu um coice na porta da geladeira para fechá-la.
Correu para o quarto, jogou a maçã sobre a cama, abriu o guarda-roupa, sacou a bermuda cinza e a camisa de um azul bem claro, pulou para a bermuda, passou o desodorante, distribuiu os pertences pelos bolsos dela e colocou a camisa, entrou nos chinelos de couro, colocou a bolsa nas costas, a maçã na mão esquerda e o molho de chaves na direita.
Entrou no carro, correu até a esquina. Porra de engarrafamento de merda! Ligou o som, deu uma mordida na maçã, ajeitou os retrovisores, o banco também, as músicas que saiam eram boas, ajudavam a relaxar, o trânsito andou.
Estacionou o carro sobre a sombra de uma velha árvore de uma praça ao lado da faculdade, saiu, jogou a bolsa nas costas, o resto da maça ao pé da árvore, trancou o carro e correu até a sala.
O professor não chegou. Como é? Ele tá atrasado, deve chegar já. Que merda, eu nem precisava ter corrido tanto. Arrumou uma carteira que ficava embaixo de um dos ventiladores, jogou a bolsa na da frente. Abriu um dos fechos da bolsa e tirou o baralho, jogou com os amigos até o professor chegar.
Durante a explicação sobre as ligações atômicas que um determinado elemento da tabela periódica poderia fazer, ele teve a visão meio embaçada daquele rosto, ele sabia das cores do cabelo e pele, do formato do rosto, só não conseguiu fechar nos olhos dela. Ela era um corpo sem olhos, sem nariz, sem boca definidos, era um monte de massa morena borrada e que mais e mais se perdia na memória.
Rabiscou por todo o resto daquela aula o que, para ele, parecia ser a garota. Ouviu o professor chamar pelo seu nome durante a lista de chamada e respondeu. Saiu com os amigos da sala, caminharam até o pátio quando o celular dele tocou, atendeu e começou a conversar com o outro lado da linha.
Foi caminhando pelo corredor que dava à portaria da faculdade, até que, do nada, surge uma garota, morena, não tão mais baixa que ele, de corpo magro protegido pela bolsa de jeans rabiscada, uma camisa branca com detalhes azuis, uma calça também de jeans e chinelas rasteiras, olhou-a de baixo para cima. Eu já vi esses brincos em algum lugar. Perdeu-se da conversa com o telefone e se achou no sonho, a garota do corredor estava usando os mesmo brincos daquela garota, não acreditou, eram brincos verdes e brilhantes, voltou ao corredor, a garota parou para beber água, tentou ver o rosto dela, ainda com o celular, em vão.
Todos os amigos o perguntavam o que estava acontecendo, ele não respondia, o celular gritava e ele nem escutava, foi levado pela massa para fora da faculdade, havia perdido a garota. Voltou para o carro, jogou a bolsa no banco ao lado e saiu.


Lucas Sales Viana

sábado, outubro 30, 2010

O jogo está na mesa...

(continuação do texto 'Sábado à noite')
...
- Mas o que é ser especial?
- Então, essa, definitivamente, é uma excelente pergunta... Não sei... Ser especial é ser você, é não se preocupar... Ou melhor, se preocupe, mas não a ponto de você se perder. [É] Entender que você, por mais que se esforce, nunca, eu disse nunca, vai conseguir agradar a todos.
Ela demonstra surpresa – É...
- Você deve agradar a si, aos seus pais e aos que verdadeiramente te amam... Não importa, sempre vai ter aquele invejoso ou estúpido que se passa de amigo te dizendo o que fazer e o que não fazer, te dizendo que não gostou do seu cabelo, da sua roupa, da sua leitura nova, tudo que você fizer de diferente, pronto, fodeu! Ele, por ser medíocre, vai querer destruir qualquer tentativa tua de ser diferente, de agir diferente, de pensar diferente.
- E como é uma garota especial para você?
- Pergunta ruim... Você sempre alterna boas e ruins? Uma pessoa não deve viver em função de outra, entende o que eu digo? Você tem seu caminho, eu tenho o meu. Se um dia eles se convergirem para o mesmo caminho, ótimo! Talvez seja essa a indicação melhor que eu sou “o certo” para você. Não é apontar pra você e dizer: “Aquela é especial para mim”. Não funciona assim... Ei, to falando muito, não gosto disso. Até agora só sei o seu curso e que você tá interessada no que tenho para falar e sei de alguns detalhes seus que eu fui pegando nessa conversa, não sei, por exemplo, seu nome?
- Nossa, gente, é verdade! Me desculpa, me chamo Camila.
- É um prazer saber seu nome, Camila. O que lhe atrai além do Vade Mecum?
Risadas inesperadas fogem daquela pequena mesa mal-iluminada – Muitas coisas, mesmo. Gosto de viajar, de um bom livro, de assistir novelas, filmes...
- Teatro, gosta de teatro?
- Nunca fui, adoraria conhecer esse mundo.
- Isso é bom de ouvir, alguém aberto a novas experiências, o que mais você gosta? Que tipo de música?
- Amo música, não tenho preconceito com músicas, gosto de ouvir qualquer uma, tem aquela ou outra que sou apaixonada. Qual você gosta mais?
- Um rock, um velho rock, daqueles que te fazem gritar durante um solo de guitarra, um velho AC/DC, Jimi, Zepellin, Doors e tantos outros.
- Eu gosto de rock, gosto do rock brasileiro, do antigo claro.
- Querem alguma coisa? – O garçom interrompe aquela conversa.
- Dois refrigerantes, pode ser? - Carlo olha para Camila.
- Pode sim – Ela responde.
- Okay, então! Dois refrigerantes, algo mais?
- Mais uma batatinha – Ela pede.
- Anotado.
Voltam a conversa - O que mais, livros, que autores te agradam?
- Ai, são tantos, não tenho um autor em específico, gosto de sair lendo...
- Pegar aquele livro na prateleira e ler feito uma louca. – Ele completa.
- É, como você sabe?  – Ela sorri. – Você é assim, também?
- Claro! Tem coisa melhor do que se jogar à sorte?... Só que ultimamente tenho lidos alguns em específicos...
- Quais?
- Alguns, uns velhotes que já morreram na sua maioria, Buko, García Marquez, Kafka, Balzac, uma galera assim...
- Só conheço o García Marquez, quais livros dele você já leu?
- Minhas putas tristes e um romance... Não “tô” lembrando o nome...
- Cem anos de Solidão?
- É, esse mesmo, você já leu pelo visto.
- Li sim, adorei o poder de descrição que ele tem.
- É, me inspiro muito nele quando vou descrever algo, gosto de detalhar bem as coisas como ele fazia e ainda faz.
...

 E eles conversaram, beberam seus refrigerantes e comeram, conversaram mais um pouco e ele olhou para aquele relógio pendurado bem atrás do balcão principal acima da estante que tinha algumas bebidas de nomes extravagantes e viu que já era tarde, só não sabia para o quê, talvez fosse hora de sair e guardar um pouco daquilo para outra hora, mesmo sabendo dos riscos de desencontro, sabia também que não seria bom queimar tudo de uma só vez. Ela insiste, quer saber sobre o que ele observara nela e tantas outras coisas que a interessaram, e ele se despede dela, avisa sobre um possível futuro encontro, pede a ela paciência, pede a conta. Ele deixa uma nota de vinte e outra de dez junto com o papel riscado com números.
Ele sai daquilo. Caminha olhando para a lua que não era tão bonita, talvez fossem aquelas nuvens, talvez fosse a lua ou talvez fossem os seus olhos. Chega ao carro, gira a chave, baixa o vidro e dá uma nota ao homem que olhava os carros.
Ela volta para a branca e para a namorada do amigo dele e para o amigo dele, conversam por mais alguns momentos, sempre olhando de forma discreta para aquela pequena mesa mal-iluminada e no canto do bar que já tinha um novo casal rindo.


Lucas Sales Viana

terça-feira, outubro 26, 2010

Sábado à noite.

- E aí? Vem mesmo?
- Vou, estou terminando de me vestir.
Ele desliga o celular e o joga na cama. Veste as calças, põe os sapatos, veste a camisa e sai.
Era uma noite. Era um sábado à noite. Um cenário clichê.
Luta um pouco para colocar o carro na vaga apertada. Consegue. Desliga o som, o carro, olha-se no espelho retrovisor lateral ao sair do carro e canta seu mantra.
- Olá! Você é um bêbado, preguiçoso e todos te odeiam, agora sorria! – O sorriso saiu falso.
Segue até o bar indicado pelo amigo enquanto coloca nos bolsos da calça a carteira, o celular e a chave do carro.
Encontra-se com o amigo e a namorada desse amigo e mais duas amigas da namorada desse amigo.
- São aquelas? – Ele pergunta ao amigo olhando para elas.
- Sim, aquela de que te falei é a de vermelho. E ela quer te conhecer.
- Percebe-se. Bom pra ela. – Ele esboça um sorriso para as meninas.
Caminha até as duas, fala com a de branco primeiro e só depois com a de vermelho. – Olá, meninas.
- Olá, Carlo. – Disse a branca.
- Olá, Carlo. – Repetiu a vermelha.
- Opa! Vejo que já sabem o meu nome.
- É, nossa amiga fala muito de você. - Antecipou-se a vermelha.
- Espero que bem, pelo menos.
Juntaram-se todos a uma mesa, conversas aqui e ali.
- Uma água, garçom. – Ele pediu.
Conversavam sobre os jogos de futebol do time feito por amigos, conversavam sobre novelas, seriados e filmes, até a política era escrachada. Reclama daquele e desse, fofoca sobre a vida dele e daquel’outra.
- Sim, vamos jogar uma partida? – Sugere o amigo.
- Vamos! – Aprova ele.
- Eu não sei jogar – Disse a branca – podem me tirar dessa, vou ficar só assistindo.
- Certo, dois times de dois – Ele disse – Você e sua garota contra eu e a vermelha. Quem vencer é o mais bonito, ou seja, vou vencer.
Um taco pra cada time, uma bola branca ao centro do pano vermelho, bolas amarelas para o casal, bolas azuis para os outros dois.
- Começa. – Ele disse.
A partida se desenrolou entre beijos melosos entre o casal a cada passada de taco e olhares entre os outros dois. Vitória das azuis.
- Eu te disse, sou o mais bonito. – Ele brincou.
- Revanche! – Gritou o amigo.
- Outra hora. – E voltaram à mesa. A dinâmica já havia mudado, ele agora conversava mais com a vermelha e ela conversava mais com ele.
- Vamos sentar em outro lugar – Ela sugeriu.
- Okay! A gente pode se sentar ali – Ele apontou para a pequena mesa vazia com duas cadeiras num dos cantos do bar. A meia luz ajudava com o clima. Ele ouviu a branca sussurrar para a namorada do amigo. – A próxima sou eu, hein?! – Ele sorriu de leve.
Sentaram-se, agora mais próximos.
- Garçom, outro refrigerante para mim. Você quer?
- Sim, obrigada.
- Outro para ela.
O garçom saiu.
- Você bebe?
- Claro, acabei de pedir uma. – Ironizou.
Ela sorriu. – Besta! Álcool? Você bebe álcool?
- Não, tenho problemas com o álcool.
- Como assim?
- Digamos que não vou de encontro à bebida.
- Não entendi.
- Sou crente. – Com a cara mais lavada mente.
- Sério?
- Não.
- Eu bebo, só que hoje não rola. Tô dirigindo.
- Você tem carro?
- Tenho.
O garçom voltou com os refrigerantes e um par de copos com gelos e rodelas de limão dentro. Serviu-os.
- Ah! Trás uma porção de fritas, por favor. – Ele lembrou quando o garçom já ia longe.
- Você faz o quê? – Ela perguntou depois de um gole na bebida.
- Estudo.
-  O quê?
- Faculdade. E você?
- Também. Qual curso?
- Você primeiro.
- Direito, e você?
- Letras.
- Sério?
- É, desinteressou-se?
- Posso perguntar o porquê do curso?
- Claro.
- Qual o motivo?
- Como eu posso dizer... Primeiro, foi o que eu consegui passar, segundo, gosto das palavras, gosto de escrever, goste de ler, gosto de ouvir, e terceiro, gosto de fazer algo diferente, não queria fazer o que todos fazem, direito, medicina, engenharia e... Sem desmerecer quem quer trabalhar com isso, claro. Acho justo, você ser médico, ou juiz, ou advogado, ou engenheiro e realmente amar a profissão. Não só por causa da grana ou do status, entende?
- Entendo.
- E você, qual foi o motivo que te levou ao direito?
- Meus pais são advogados e fui criada nesse meio, acabei tomando gosto pela coisa. E concordo com você, tive alguns colegas que já desistiram do curso por não se identificarem com o mesmo.
- Isso é bom!
- Você me disse que gosta de escrever e já ouvi falar dos seus textos. Você escreve mesmo?
- Escrevo.
- O quê, por exemplo?
- Coisas.
- Que tipo de coisas?
- Coisas que surgem na minha cabeça... Sabe quando você se deita e junto vêm milhares de ideias, fatos que aconteceram, fatos que aconteceram e que você gostaria de mudar aqui e ali, fatos que aconteceram e que não deveriam ter acontecido e fatos que você sonha que aconteçam? Pois é...
A batata chegou junto com um pote com molho de cor rósea.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Nada.
Enquanto comiam falavam sobre tudo, riam das piadas criadas, das besteiras faladas e das caretas feitas.
- Hey, hora da revanche.
- Tá bom, vamos. Mesmos times. – Carlo disse.
Mesmo cenário, bolas amarelas para o casal de namorados, bolas azuis para os outros dois.
Vitória dos azuis.
- Admita, sou mais bonito. – Carlo brincou.
- Vai se foder. – Brincou o amigo.
Voltaram à pequena mesa. O assunto agora era outro.
- Você já namorou? – Ela perguntou.
- Quer mesmo saber? – Alertou.
- Quero.
- Já.
- Quantas vezes?
- Uma.
- Só? Quantos anos você tem?
- Vinte, e você?
- Dezoito. E só namorou uma vez?
- É.
- Por quê?
- Quer mesmo saber? Coisas pessoais.
- Quero – E ela se aproximou apoiando o queixo nas costas das mãos.
- Tá bom.
Ele falou que só namoraria alguém quando tivesse certeza que valeria a pena, disse que conheceu muitas garotas, mas nenhuma despertava um interesse maior, todas falavam a mesma baboseira de sempre.
- E você escrevia para essa?
- Claro. Pra dizer a verdade, eu comecei mais a escrever por causa dela.
- E você...
- Você realmente quer falar sobre a minha ex? – Interrompeu-a. - Não, melhor não, né?
- Mas, só mais uma pergunta, pode ser?
- Pode.
- Você escreveria para mim?
- Não sei. Você seria especial para mim?


Lucas Sales Viana


terça-feira, outubro 12, 2010

De quê?

No carro, cinco.

Um novo motorista, um amigo ao lado e três amigas atrás.

Uma música eletrônica no som, uma noite qualquer com uma lua envergonhada.

O destino: uma boate.

Encontram-se com uma amiga e com um amigo e com mais um e mais outro...

Uma fila enorme, um barulho ensurdecedor e vendedores insistindo em oferecer bebidas alcoólicas.

Mulheres que saem de carros acompanhadas de seus bulldogs travestidos de homens, solteiras que saem de táxis com suas “amigas” de festa, [todas] vestidas da melhor e da pior maneiras possíveis.

Homens que passam olhando para cada uma tentando transparecer confiança, mas que se usam do copo como um escudo, outros que nem ligam e andam até o final da fila.

E na cabeça de um (de todos) surge: Vou tomar todas! Vou chegar naquela e naquela e naquela...  Será que ele veio? Essa fila não anda, porra?

E a fila só aumenta...

Começam os assuntos... Olhares e mais olhares... Cruzar de braços, abrir de pernas, olhares para trás, viradas de garrafas... Um abre a carteira conferindo a grana, outro olha as horas, outra abre o pequeno espelho para conferir a autoestima, que até o traço perdeu.

Duas garotas se aproximam, conversam com uma das amigas do grupo e depois se vão.

A fila anda...

Cada um mostra a sua identidade para o pequeno segurança ao lado da entrada.

Entram.

A festa já ia a todas, uma garota já cantava no palco e as pessoas já se movimentavam ao redor do palco, ao redor das mesas de sinuca, ao redor do bar, ao redor de outras pessoas.

Moças bonitas, moças normais e moças não tão bonitas.

Homens fortes e atraentes e homens fracos e não atraentes.

Mulheres de quadris largos, de seios fartos, de quadris, de saia, de camisa quase transparente, de vestido, de salto alto, de botas, com maquiagem, com muita maquiagem, sem quadris, de cintura fina, de seios perdidos nos bojos traiçoeiros, de cintura larga.

Homens de braços roliços, de gosto duvidoso, de chinelo, de barba feita, de sapato, de camisa e calças limpas, de cavanhaque, de cabelos modelados, de tênis, de calças e camisas coladas, de barba por fazer, de cabelos amassados.

Alguns insistiam em querer conversar, estabelecer uma comunicação com o sexo oposto ou com alguém do mesmo sexo, era uma orelha colada na boca do outro aqui, um gritando na do outro ali, cuspindo acolá...

Aquelas garotas já circulavam pela boate, ouviam elogios e cantadas e deixavam escapar alguns sorrisos e outros sinais de interesse. Uma parecia procurar (procurava incessantemente) por um, outras duas só rodavam, uma com seu inseparável copo e a outra sem a voz, e a última, estranhamente, procurava pelo seu coração.

Os dois amigos curtiam cada um na sua freqüência, acompanhados de olhares de uma garota ali, daquela sentada no balcão, daquel’outra conversando com as amigas numa roda, de sorrisos diretos e outros não tão diretos, de mexidas nos cabelos, de cruzares de pernas, nessa ordem, na inversa, ao mesmo tempo.

Chega um terceiro, já estava alto:  Vamo, pô! Vou ficar com aquela ali, preciso de um parceiro pra enrolar a amiga dela, topa? Tô fora, deixo com você essa. Nem eu, tô tranquilo aqui. Vocês são dois cagões. Beleza, vai lá.

E ele volta. Pronto, fiquei com ela, mas ela disse que tava a fim de ficar contigo. E daí? Daí que você devia ir lá. Tá louco? Vou beijar uma garota que [você] acabou de beijar? Qual o problema? Nada, deixa pra lá, higiene.

Os cinco (agora seis) amigos se juntam, os dois homens e as quatro mulheres, uma decepcionada, outra frustrada, outra triste e outra cansada, um maluco e um solitário. Dois conversam sobre relacionamentos e suas frustrações de percurso. Outra bebe acompanhada por uma. A outra se senta numa cadeira e o último se senta na mesa da sinuca mesmo.

O motorista resolve pedir uma bebida pra ele e para a amiga de conversa. Vai à fila. Bêbados que mal conseguem se segurar nas pernas se apóiam nas barras e bordas do balcão. Chega a sua vez. Duas águas, por favor. Só duas águas, o que houve, gato? [Estou] Dirigindo e dando carona, não posso arriscar. É, sei como é isso, são quatro pratas. Aqui o dinheiro. Valeu. Obrigada.

Aí sua água. Valeu. Eles bebem calados.

Vamos nessa? Vocês já querem ir, vamos, então.

Eles se vão, os cinco que iniciaram são os mesmos que terminam, o motorista acompanha uma das amigas que insiste em trocar os pés até o carro, o outro carrega as outras duas.

Ele dirige sempre veloz, como se fugisse de algo, param em uma lanchonete e noutra e depois as três são deixadas na casa de uma e o amigo é deixado na sua casa e aquele segue só até a sua ‘casa’.

O carro para, a chave vira e a luz interna acende, ele desliga o som que tocava uma coisa melódica e pega seus pertences, sai do carro, tranca o carro. Entra no edifício de nome bíblico. O elevador já o esperava.

Fim de noite.


Lucas Sales Viana

domingo, agosto 29, 2010

(Bom) Dia Incomum.

E lá vai ele. Óculos de sol, camisa com estampa, calça jeans, chinelo qualquer e com um LP na mão. Aniversário de um amigo, presente meio grego, um disco com músicas toscas encontrado numa antiga vitrola. Chega ao destino, entra, conversa com o aniversariante da semana. Esperam pelo resto do grupo assistindo a um programa qualquer.

Aos poucos vão chegando, a advogada, os irmãos, a enfermeira e a estudante. Uns refrigerantes gelados, um papo morno e uns salgadinhos quentes. Você tá de calça jeans? É, resquício de um passado não muito distante. Não quero ficar aqui. Vamos para um bar? Sim, vamos. Os três num carro e as quatro em outro.

Uma dificuldade tremenda um dos carros passa para realizar uma manobra quase irreparável, um do grupo salva a motorista, estava cansada, é aceitável. Um babaca com sua puta particular aplaude. Sentados à mesa, uns bebem, outros não, o papo ainda morno, uns falam da vida alheia, outros também. Garotos fortinhos, carros da mesma marca e, às vezes, do mesmo modelo, música de pouca ou nenhuma qualidade e um jogo de merda na televisão.
Vamos tomar sorvete? Sim.

Os três no carro, uma música toca na rádio e o automóvel balança de um lado para o outro. Um momento de total insanidade interrompido pelas moças do outro veículo. Olha, estamos ouvindo a mesma música. Legal. Todos à sorveteria. Moça, como é um simples? Uma resposta cavalar é dada. Idiota. Eu quero um de laranja com limão, eu, um de cajá. Uma pede um de cor marrom. Vem aqui no meu carro para eu te mostrar uma coisa. Você viu a revista da Cléo? Só pela internet. Viu, essa é a minha camisa nova? Muito bonita. O papo, finalmente, flui. Vamos para a casa da enfermeira?

Sentados à beira da piscina, uns ouvindo músicas em aparelhos eletrônicos, outros conversando qualquer coisa. Onde está a dona da casa? Foi cuidar do filho, ela volta já. “Me passa” o Mentos? Vai comprar. Vocês deviam fazer igual à Kate. Ela gostou. Como “tu” consegue fazer isso? Só depende de onde ela bate no teu pé. Eu só consigo fazer um. Enrugou até a alma, espera aí. A conversa se estica por uma hora, talvez duas, sempre ao som de risadas por vezes controladas por outras nem tanto.

Alguns se despedem, quatro para ser preciso, os irmãos, a estudante e o aniversariante. Sobrando apenas aquele, a enfermeira e a advogada sentados na mesma cadeira. O assunto muda, fica mais sério, mas com algumas risadas quando se fala das crianças e de suas experiências. Os pais chegam, a advogada se vai, logo depois aquele também. Tua sexta é livre, pois vamos marcar uma praia? Apareça mais vezes. E mais um dia (noite) incomum termina.


Lucas Sales Viana

domingo, agosto 22, 2010

O amor é um inferno.

O que é o amor?

Depois de uma longa reunião regrada a uma mistura de vinho barato, alimentos industrializados, jogos amorais e uma trilha sonora escolhida a dedo, quatro jovens dentro de um quarto decidiram que o amor é uma grande bosta.

Eu, namorar, nem tão cedo, eu não vou amar mais ninguém. Ponto pra os solteiros, toca aqui. No final tudo se resume ao sexo, já dizia Freud. É, meu caro, é a seleção natural, eu devo espalhar minha genética não importa com quem, encher o mundo de pequenos cabeçudos. Brigamos constantemente, por qualquer coisa. Caralho, perdi meu anel. Depois “tu” pega. Na Vitrola, Balão Mágico.

Horas se passam, argumentos dos mais infundados possíveis são defendidos como uma verdade absoluta. Ataques pessoais a não presentes são feitos à boca cheia. Risos e mais risos. Luzes apagadas, luzes acesas, luzes apagadas, luzes acesas, luzes apagadas. Porra, meu copo esvaziou, volto já. Ao fundo, Cazuza grita suas verdades. “Bota” baixo pra gente poder conversar.

Eu aprendi massoterapia. Ah, eu conheço. Deita de bruços. Eu também sei fazer massagem, vem aqui. Sai fora! Eu tenho cócegas. Não é massagem, mongol. Você está excitado? Não, estou relaxado, é diferente. Você tem cócegas? Tenho. Risos incontroláveis soam como música. Minha mãe, hora de ir para casa.

É, no final, o amor é uma droga. É muito ruim você conversar com alguém, se abrir e falar o que realmente pensa, sabendo que ela está lá, te ouvindo com toda a atenção. É muito ruim você ter um ombro onde chorar, um par de pernas onde pode recostar a sua cabeça para receber afagos. É muito ruim você pensar que sempre tem alguém a sua espera. É muito ruim você acreditar que serão felizes para sempre, chega a ser ingênuo. Ingênuo? Idiota, né?! Sejamos solteiros, companheiros! (olha aí, até rima tem!)

Mas lá no fundo, talvez, o que eles queriam era só dizer aos seus parceiros e parceiras:

Estamos bem?

Ou talvez fosse só um reflexo da mistura.


Lucas Sales Viana